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Cultura Aniversário

Grupo Cênico Regina Pacis completa 60 anos

Um projeto da cidade de Sao Bernardo do Campo

21/04/2022 17h32 Atualizada há 4 semanas
Por: Redação Fonte: Aprem Comunicação
Divulgação
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Sentado na plateia estou aqui pensando até onde cheguei. E me surpreendo. Acho que sou o único nestas terras brasileiras a atingir essa marca, numa caminhada de constante aprendizado, dedicação extrema e uma imensidão de amor pelo palco. Confesso que nesses dois últimos anos me senti um pouco desanimado, não pelo peso da idade, mas em função de um vírus imoral e devastador que tomou a cena sem permissão e fez reféns o teatro e sua gente, empurrando todos para a coxia e virando o mundo de cabeça para baixo. Olhando incrédulos pela fresta da cortina tinham que encarar esse duelo real que escancara com nitidez a fragilidade da vida, a força da arte e o teatro como o grande respiro. Momento de descobrir outros caminhos, mesmo que virtuais, e seguir de alguma forma, preservando a vida e fazendo o texto chegar ao público registrado em imagens. Ah...a vida! Ela sobe ao palco todos os dias de mãos dadas com a morte, ora como prólogo, ora como epílogo. O jogo cênico que o teatro propicia é instigante e único. Ah...o teatro! Ele é a razão da minha existência.

Hoje, aos 60 anos, meu olhar se volta para o amanhã de possibilidades pensadas e ainda não realizadas e para aquele piquenique tão gostoso onde nasci para os palcos, gerado por um talentoso homem das artes de nome Antonino Assumpção. O dia? 21 de abril. Ano: 1962. E lá estava eu, um recém-nascido assustado com o desafio e querendo provar o sabor de uma aventura chamada “fazer teatro”, por meio daqueles jovens que viam nessa nova experiência algo muito além da rotina diária de trabalho, casa, igreja. 

E tudo começou ali mesmo na Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem, onde já participavam de encenações religiosas, entre outras atividades, numa São Bernardo do Campo de vida cultural incipiente. Comecei engatinhando a minha aventura de subir ao palco, mostrando cenas pequenas e bem-humoradas e logo fui me fortalecendo e dando passos mais firmes, movido pelo entusiasmo e dedicação de todos porque eu fui feito do coletivo e como coletivo já era hora de eu ter um nome. Ele surgiu do ambiente religioso frequentado pelos recém-iniciados na arte do teatro, extraído de uma ladainha dita em latim: Regina Pacis, ou seja, Rainha da Paz. Por consenso, assim fui batizado e o meu nome completo ficou Grupo Cênico Regina Pacis. Já denominado, fui seguindo mais confiante nos trabalhos seguintes.

Aos poucos foram chegando textos mais consistentes que exigiam um passo mais seguro e uma entrega maior de cada um, e que, quando levados à cena, apontavam para um caminho de maior exposição. Era hora de eu mostrar meus espetáculos também para outras plateias, de ampliar o círculo de apresentações além São Bernardo. Naquele momento, já desvinculado da paróquia, comecei a alçar novos voos passando pelos festivais de teatro nas décadas de 1960 e 70, uma vitrine e tanto da produção amadora do estado de São Paulo. E me vi concorrendo com outros espetáculos bem cuidados, apresentando o resultado do nosso trabalho teatral para casas lotadas e olhos atentos de julgadores. Dos festivais vieram reconhecimento e muitos prêmios individuais e coletivos e, o melhor, o incentivo em continuar e a exigência de um aprimoramento mais intenso. E este veio dos profissionais renomados que passaram por mim trazendo sua vasta bagagem teatral. Assim fui crescendo nos palcos vivendo o cotidiano do “todos fazem tudo” e incorporando essas novas informações e formas de produzir, com a equipe dando o seu melhor sempre. Quanta gente talentosa e despojada levando avante um sonho coletivo! 

De montagem em montagem fui ficando grandinho e absorvendo novas experiências ao abrir as cortinas para muitos dramaturgos importantes aqui deste nosso Brasil, de outros territórios, além das crias da casa, emocionando plateias de todas as idades nos mais diferentes espaços. O público me renova e me faz pensar. Como é bom sentir o respirar de gente tão interessada nesse exercício artístico de troca tão intenso, tão transformador e tão efêmero que é o teatro. Subiram ao palco uma infinidade de personagens: Zumbi, Castro Alves, Jesus Cristo, Gigi Damiani, a dupla João Grilo e Chicó, D. Pedro I, João Ramalho, Marquesa de Santos, Cacique Tibiriçá, João de Calais, piratas, fadas, papagaios, barões, bruxas, reis, anjos, homens e mulheres do povo. Estes são só alguns que se juntam a tantos outros saídos de páginas tão bem escritas. Páginas muitas vezes excluídas da obra teatral e cenas taxadas de impróprias por mãos de censores, num período tão cruel para artistas de todas as artes. Momento de não fraquejar, tomar fôlego, e seguir em frente. Foi o que eu fiz. Segui mostrando um teatro andarilho que percorreu quilômetros de distância e continuou falando a públicos muito distintos. Da praça à sala de aula o recado foi dado, nem sempre com todo aparato técnico disponível num teatro, mas com o mesmo vigor e verdade.

Comemorei a maioridade com uma montagem que condensou em quadros cênicos tudo o que havia sido feito até ali. E era muita coisa. Passei do século 20 ao 21 de corpo inteiro sobre o palco, interpretando textos apaixonantes. Quanta emoção estampada no rosto de cada espectador ao longo de tantos anos e não menos emocionantes foram os momentos dos prêmios e honrarias. Troféus e medalhas simbolizando o reconhecimento e o mérito de todos que me fizeram chegar até aqui.  Reputo estar vivo um grande triunfo coletivo pois muitos não tiveram a mesma sorte e foram ficando pelo caminho, infelizmente.  Sem falsa modéstia acho que sou o mais longevo do país em atividade ininterrupta desde aquele abril de 1962. Meu currículo registra 160 montagens entre dramas, comédias, autos de natal, peças infantis, tragicomédias, encenações de cunho religioso, leituras dramáticas, contação de histórias, todas levadas à cena por elencos que envolveram os pioneiros abnegados, outros batalhadores que vieram em seguida, jovens motivados que se uniram aos que ali estavam e ainda outros que chegaram num período mais recente, num curso natural de renovação nessa minha longa trajetória em que vários se foram deixando lacunas imensas e saudade sem fim. 

Estou sempre aberto para receber gente nova e comprometida assim como aberto está meu vasto acervo de vida que, por ser tão peculiar, se constitui matéria-prima para pesquisadores, já foi tese e volta e meia vem a público em exposições, publicações, consultas entre outros formatos. Foram tantos os que construíram a minha história nos palcos, nos bastidores, em tablados, nas coxias, debaixo de refletores, circulando pelos urdimentos, confeccionando cenários e figurinos, apostando no trabalho, dando apoio financeiro e moral que fica difícil elencar todos os nomes. Sem contar que desde o início e até hoje nenhum deles recebeu um tostão sequer para atuar, pois o sustento sempre veio de seus empregos. A dedicação acontece por pura paixão. O ganho com o teatro sempre foi infinitamente maior, um ganho na alma e no coração.

Permaneço pensativo e ficaria horas discorrendo sobre esse meu passado tão presente e que só me impulsiona a continuar, mas convenhamos que escrever uma jornada de 60 anos em 60 linhas é missão impossível. Para essa gente de teatro tão especial que fez desses meus 60 anos de vida parte de suas vidas, minha homenagem em forma da mais profunda e imensa gratidão. Eu sou cada um de vocês.  Oxalá eu possa seguir fazendo teatro em toda a sua grandeza. Vontade não me falta.

Sentado na plateia estou aqui pensando até onde cheguei. E me surpreendo. Acho que sou o único nestas terras brasileiras a atingir essa marca, numa caminhada de constante aprendizado, dedicação extrema e uma imensidão de amor pelo palco. Confesso que nesses dois últimos anos me senti um pouco desanimado, não pelo peso da idade, mas em função de um vírus imoral e devastador que tomou a cena sem permissão e fez reféns o teatro e sua gente, empurrando todos para a coxia e virando o mundo de cabeça para baixo. Olhando incrédulos pela fresta da cortina tinham que encarar esse duelo real que escancara com nitidez a fragilidade da vida, a força da arte e o teatro como o grande respiro. Momento de descobrir outros caminhos, mesmo que virtuais, e seguir de alguma forma, preservando a vida e fazendo o texto chegar ao público registrado em imagens. Ah...a vida! Ela sobe ao palco todos os dias de mãos dadas com a morte, ora como prólogo, ora como epílogo. O jogo cênico que o teatro propicia é instigante e único. Ah...o teatro! Ele é a razão da minha existência.

Fotos Histórica do Grupo Cênico Regina Pacis:

 

São Bernardo do Campo - SP

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Sobre o município
São Bernardo do Campo é um município brasileiro do estado de São Paulo, na Mesorregião Metropolitana de São Paulo e microrregião de São Paulo.
São Bernardo do Campo - SP
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